FRONTEIRA AGRÍCOLA Brasil pode aumentar área de soja em 35 mi/ha com manejo de solos arenosos


Foto: Pixabay

Porto Velho, RO - “O filé já foi”. A frase descontraída do pesquisador da Embrapa Soja, Henrique Debiasi, serve para ilustrar a dificuldade dos produtores na busca por novas áreas para o cultivo da oleaginosa. De fato, os melhores solos para o cultivo do grão, de Norte a Sul, já foram ocupados. No entanto, ainda há muito a ser explorado. E o melhor: sem desmatar e com índices satisfatórios de produtividade econômica.

Isso porque, considerando apenas o bioma Cerrado, estima-se que o Brasil tenha mais de 60 milhões de hectares de pastagem, sendo que cerca de 60% destes espaços são aptos ao sistema integração lavoura-pecuária. “Significa incluir dentro do contexto de produção de grãos aproximadamente 35 milhões de hectares de área que, atualmente, está degradada e tem baixíssima produtividade. É uma fronteira agrícola enorme que pode ser explorada sem que se derrube uma única árvore para isso“, destaca o pesquisador.

O problema, contudo, é que a grande maioria desta área possui solo arenoso. Ambientes com este perfil são caracterizados, essencialmente, por três fatores: baixa fertilidade natural, pouca capacidade de armazenamento de água e nutrientes e alta probabilidade de erosão. “Isso tudo porque a maioria dessas áreas está localizada em regiões que contam com clima quente e distribuição irregular de chuva. O contexto é desafiador”, pondera Debiasi.

Assim, grandes regiões dos estados de Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso, além do noroeste do Paraná contam com solos que se encaixam nesta realidade. Para o especialista da Embrapa Soja, a integração lavoura-pecuária é a ferramenta que melhor pode contornar os problemas de uma futura e, talvez, necessária expansão na sojicultura brasileira. “Áreas com solos arenosos têm produtividade muito baixa, mas, por meio da integração lavoura-pecuária em sistema de plantio direto, alcançam eficiência produtiva de carne, leite e também de grãos de forma muito mais sustentável, inclusive com potencial de fixação de carbono no solo”.

O que explica essa vocação ambiental do sistema é a matéria orgânica do solo, formada por, aproximadamente, 40% de carbono advindo da decomposição dos restos culturais das plantas que, por sua vez, retiram este CO2 da atmosfera e o sequestram no solo, gerando armazenamento de água e nutrientes. “Futuramente, o produtor pode alcançar até uma safra que lhe gere créditos de carbono, visto que o mercado está se estruturando neste sentido”, lembra o pesquisador.

Incremento de matéria orgânica

Além da incorporação do gado no sistema, o produtor pode optar por aumentar o teor de matéria orgânica no solo arenoso com a inclusão de gramíneas forrageiras tropicais perenes, como braquiárias e panicum. “Essas forrageiras podem ser colocadas no outono/inverno e, apesar de serem perenes, o produtor pode tratá-las como se fossem anuais, sem colocar o gado, só para produzir palha e matéria orgânica. A partir de então, planta-se a soja no verão e coloca-se depois as gramíneas forrageiras tropicais, que também podem ser consorciadas com leguminosas, como crotalária e feijão-guandu, por exemplo, para produção de palha e formação de nitrogênio”.


Integração lavoura-pecuária com capim braquiária. Foto: Gabriel Faria/Embrapa

No entanto, como as regiões de solos arenosos possuem vocação pecuária, é por meio da integração do gado na equação que a probabilidade de sucesso é maior. “Nesse caso, o modelo que é, talvez, o mais utilizado é o ciclo de quatro anos, ou seja, durante dois anos a área fica com pasto perene, produzindo carne ou leite e, depois de dois anos, se alterna com soja no verão e pastagem de gramínea apenas durante o outono/inverno“, conta Debiasi.Soja: falhas de plantabilidade geram prejuízo de R$ 70 mil a cada 100 hectares

Com isso, se tem um aporte de palha e raiz no sistema que, mesmo quando pastejado, pelo próprio esterco do animal, retorna e gera aumento do teor de matéria orgânica no solo, proporcionando, também, cobertura e retenção de água.

Além disso, o pesquisador da Embrapa Soja destaca que a ciclagem de nutrientes que as forrageiras tropicais perenes proporcionam também é um fator importante. “Essas forrageiras possuem raízes com mais de dois metros de profundidade, ou seja, captam pela raiz os nutrientes que estão lá embaixo e os transferem para a parte aérea da planta, que é a parte vegetativa visível, ficando alojados onde a soja está”, explica.

Produtividade em solos arenosos

Ainda que o potencial produtivo de áreas com solo arenoso seja menor do que o de terrenos argilosos e em ambientes com distribuição de chuva regular, o produtor pode, sim, atingir bons níveis de produtividade em sua lavoura.

“A recomendação é que o produtor faça uma lavoura defensiva, tentando minimizar ao máximo os custos de produção e investindo muito em construção de perfil de solo, principalmente na parte física, orgânica e biológica, ou seja, colocando o máximo possível de raiz nessas áreas e isso se consegue com as gramíneas forrageiras tropicais perenes”, orienta.

Existem relatos de concursos de produtividade de cooperativas no arenito paranaense em que produtores ultrapassaram 80 sacas de soja por hectare. “Mas temos de ser realistas: o potencial produtivo destas áreas é menor. Claro que, dependendo da safra e do manejo, pode acontecer até de o produtor em uma área dessas conseguir produzir ainda mais do que em um ambiente mais favorável. É viável. Mas são casos raros, em lavouras que possuem muitos anos de manejo com integração lavoura-pecuária”, conclui Debiasi.

Fonte: Por Victor Faverin, de São Paulo
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