Como o MBL quer se tornar braço político de Moro para unir a 3.ª via em torno do ex-juiz

Moro, ao lado de Arthur do Val e outros integrantes do MBL, durante o último congresso do movimento.| Foto: MBL/divulgação

Porto Velho, RO
- O Movimento Livre Brasil (MBL) quer ser protagonista na construção de uma terceira via única nas eleições de 2022. E Já escolheu seu candidato a presidente: o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro (Podemos).

Com cerca de 5,5 milhões de seguidores nas redes sociais onde tem um perfil oficial e apoiado sobretudo pela militância em São Paulo, o MBL quer usar seu capital político e social para ajudar a eleger Moro e aumentar sua bancada no Congresso.

O MBL trabalha com o lançamento de pelo menos dez candidaturas em 2022. As cinco principais são a do deputado estadual Arthur do Val (Patriota-SP) ao governo de São Paulo; a do deputado estadual Heni Ozi Cukier (Novo-SP) ao Senado; a reeleição do deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) e as do vereador paulistano Rubinho Nunes (PSL) e da ativista Adelaide Oliveira (Patriota) à Câmara dos Deputados.

Nesta terça-feira (18) inclusive surgiu a informação de que Arthur do Val inclusive deve deixar o Patriota para se filiar ao Podemos ainda em janeiro, levando junto outros militantes do MBL.

As outras cinco candidaturas de integrantes do MBL serão para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Estão previstas as do coordenador nacional do MBL, Renato Battista; da empresária e ativista Amanda Vettorazzo; do coordenador do Plano de Governo de Arthur do Val, Cristiano Beraldo; do vereador Glauco Braido (PSD), de São Bernardo do Campo (SP); e do ativista Guto Zacarias. Outras candidaturas para o Legislativo paulista não estão descartadas.

Por meio dessas dez candidaturas, o MBL espera atingir, sobretudo, o eleitor da "geração Z" – pessoas nascidas entre 1995 a 2010. A coordenação e a militância sabem que o movimento têm maior capilaridade junto ao eleitorado jovem, extrato majoritário da sociedade de onde esperam puxar os votos para eleger seus quadros e Moro.

Em novembro, o movimento conseguiu reunir em seu congresso anual cinco pré-candidatos à Presidência da República. Em um dos dias do congresso, estiveram presentes os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), além do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) e do empresário e cientista político Luiz Felipe d'Avila (Novo). A senadora Simone Tebet (MDB-MS) cancelou sua participação de última hora. No dia seguinte, Moro foi ao evento.

O comparecimento de cinco pré-candidatos ao evento foi considerado um sucesso pelo MBL. A cúpula do movimento sentiu que poderia assumir o protagonismo no debate da terceira via. Atualmente, os coordenadores têm mantido um diálogo com as equipes desses presidenciáveis, principalmente com a de Moro. Alguns de seus integrantes mantêm um contato direto com o ex-juiz.

A principal estratégia traçada pelo MBL é de que todos seus candidatos sairão candidatos por um mesmo partido. A ideia é transmitir união em torno de um projeto e valorizar seu capital político. A leitura é de que, dessa forma, poderão ter maior poder de influência na discussão da terceira via e maiores chances de sucesso em eleger seus candidatos.

"Nossa estratégia passa por todas as candidaturas serem do mesmo partido. Neste momento, temos conversado bastante [com partidos políticos]", afirma à Gazeta do Povo o vereador Rubinho Nunes, coordenador jurídico do MBL. "Acho que, em breve, devemos ter definição da sigla para poder tornar público, mas a certeza é que todos vão concorrer pelo mesmo partido", reforça. A informação de que Arthur do Val irá se filiar ao Podemos dá indicação de que essa será a legenda do MBL e que Moro será o candidato do grupo.

Com que partidos o MBL conversa e qual a tendência de escolha

Os coordenadores e integrantes do MBL evitam dar muitos detalhes sobre as conversas com os partidos. Eles admitem, contudo, que conversam com três partidos: o Podemos, o Patriota e o União Brasil (este último, partido que surge da fusão entre PSL e DEM, mas que ainda aguarda a homologação pelo Tribunal Superior Eleitoral, TSE).

As conversas com o Patriota são feitas com o presidente do partido, Ovasco Resende. Filiado ao partido, Arthur do Val é quem capitaneia as conversas pelo movimento, mas ele mesmo não garante a permanência na sigla. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ele declarou estar em uma posição de "sentar e exigir". "A gente fez uma lista de exigências para todos os partidos e estamos conversando."

Em outra declaração, o pré-candidato ao governo de São Paulo disse "estar" no Patriota e afirmou que irá apoiar Moro "independentemente de qualquer coisa". De forma reservada, membros do MBL admitem a vontade de se filiar ao mesmo partido do ex-juiz da Lava Jato, o Podemos. Há conversas em andamento com a presidente da legenda, a deputada federal Renata Abreu (SP).

Entretanto, o União Brasil ainda seria outra opção. O deputado federal Júnior Bozzella (PSL-SP), vice-presidente do partido e braço direito do presidente da legenda e do União, o deputado federal Luciano Bivar (PE), mantém conversas próximas com o MBL e Moro. A despeito da sinalização de uma aliança com o Podemos, ainda existe uma esperança do União Brasil em filiar o ex-juiz da Lava Jato.

O grupo partidário de Moro defende sua permanência no Podemos, mas alguns integrantes de seu núcleo pessoal da campanha, que incluem amigos e outras pessoas mais próximas, defendem que ele siga para um partido com maior estrutura partidária. A defesa desses aliados é de que, em uma campanha presidencial, ele vai precisar de um partido mais estruturado e com maior capilaridade.

"Isso é uma coisa que não pode ser descartada. Eu sei que ele é um homem de palavra, mas se ele precisar de uma estrutura e de um diferencial, temos que ir para um partido que ofereça isso. No atual cenário, não vejo outro com essas características além do União Brasil", diz um integrante da coordenação pessoal de Moro.

Qual é a expectativa do movimento para as eleições de 2022

A permanência de Moro no Podemos ou uma possível filiação dele ao União Brasil por uma questão de mais estrutura e recursos para bancar sua candidatura, integrantes do MBL pretendem manter sua posição de não usar recursos dos fundos eleitoral e partidário. É uma das bandeiras que os candidatos pretendem levantar a fim de convencer o eleitorado do projeto de mudança defendido pelo movimento.

Candidata a vice-prefeita da capital paulista na chapa com Arthur do Val nas eleições de 2020, Adelaide Oliveira lembra que o uso responsável dos recursos públicos foi a primeira coisa que o pré-candidato ao governo paulista falou para convencê-la a se unir a ele na última campanha municipal.

"Ele me falou assim: 'eu não uso fundo partidário e não vou usar'. Abrir mão do fundo partidário não é uma decisão fácil e trivial. Quando você abre mão disso, de carro oficial, de motorista, de assistência médica eterna, vitalícia, de tudo isso, aquilo é para te lembrar que você tem uma ideologia", diz Adelaide à Gazeta do Povo.

Ex-porta-voz do movimento Vem Pra Rua, a militante do MBL confirma sua pré-candidatura à Câmara dos Deputados e diz que vai defender as bandeiras do combate à corrupção, do fim dos privilégios, de um Estado eficiente, e de uma reforma política que enderece os partidos para um caminho ideológico de agremiações partidárias. "Hoje, as legendas não caminham para serem agremiações ideológicas, e falo em ideologia no seu melhor sentido", sustenta.

A expectativa pessoal de Adelaide é ser eleita e fortalecer o trabalho do deputado Kim Kataguiri na Câmara. Já a meta coletiva é de que todos os demais candidatos do movimento sejam eleitos e contribuam com a união da terceira via em torno da candidatura de Moro, a fim de ampliar as chances de elegê-lo. "Nós já somos o fio condutor da terceira via e seremos até o último dia. Estaremos até outubro trabalhando por isso. Nós realmente acreditamos que podemos juntar pessoas que pensam no país", destaca.

O coordenador jurídico do MBL reforça a expectativa de Adelaide. "Entendo que o apoio dos parlamentares do movimento gera um efeito natural na terceira via. Não acho que é uma pá de cal ou fator definidor para a junção de todos, mas acho que tem um certo peso, inclusive para auxiliar na candidatura, fortalecer e ajudar a aumentar a capacidade eleitoral de determinado candidato", diz Rubinho. "Esperamos poder contribuir com a terceira via neste sentido com a militância e viabilizando a candidatura de Moro", complementa.

Na eleição presidencial, o MBL trabalha com a meta de atingir principalmente o público indeciso. Eles citam uma pesquisa divulgada na semana passada, feita pela Genial Investimentos com a Quaest Pesquisa e Consultoria, que aponta que 52% dos eleitores não sabem em quem votar. Do perfil da amostra, 14% dos entrevistados têm entre 16 a 24 anos e 20% têm entre 25 a 34 anos.

O que Moro acha do apoio e como ele estuda retribuir

O apoio dado pelo MBL é bem visto por Moro. Não à toa, o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do presidente Jair Bolsonaro tende a fazer uma "dobradinha" em São Paulo com Arthur do Val, subindo no palanque do membro do movimento. Há conversas nesse sentido desde 2021 e ambos seguirão com o diálogo a fim de amadurecer a possível aliança.

"Hoje, o Arthur é o liberal que melhor pontua nas pesquisas e nosso objetivo é levar a candidatura até o final, até porque tem grande potencial de crescimento", destaca Rubinho. "A terceira via viável é Moro e trabalharemos por isso. Entendemos que tanto o Lula quanto o Bolsonaro representam duas faces da mesma moeda, política populista, mentirosa e irresponsável, tanto no aspecto econômico quanto no ético e moral", diz o coordenador jurídico do MBL.

O ex-juiz é um entusiasta do MBL e reconhece a força social construída. "Como é um grupo muito regionalizado, eles conseguem entregar o apoio esperado em São Paulo, mas nacionalmente eles não têm a mesma força", diz um interlocutor do presidenciável do Podemos.

A pouca expressividade do MBL fora de São Paulo é algo que Moro considerará antes de fechar as alianças, avisam interlocutores, o que pode impactar até mesmo a aliança em São Paulo. Os mais próximos do ex-ministro admitem que um apoio à candidatura de Rodrigo Garcia (PSDB) não pode ser descartada, caso isso tire Doria do páreo. Uma composição com o PSD, de Gilberto Kassab, também não é descartada.

"Muitos dos apoiadores de Moro não têm a crença de que só o apoio do MBL vai ser suficiente [para viabilizar a candidatura]. O apoio deles é um ingrediente, a própria eleição de 2020 foi um divisor de águas. Voltou a tradicional política, e, agora, a gente prevê que teremos que encontrar essa convergência entre a nova com a velha política", diz um interlocutor de Moro, em referência à importância de buscar alianças nacionais.

Fonte: Por Rodolfo Costa, Brasília
Postar um comentário (0)
Postagem Anterior Próxima Postagem